- Quando o catarinense Ivar Luiz Schmidt, que reside em Mossoró há 16 anos, começou a programar com os companheiros do Comando Nacional dos Transportes o manifesto dos caminhoneiros, não imaginava que o ato teria uma adesão tão grande e que se fortaleceria a cada dia desde o início – há duas semanas – quando várias rodovias federais e estaduais foram bloqueadas.
Sem data para retornar a Mossoró, Schmidt liderou ontem, 2, um protesto de caminhoneiros em Brasília. O ato batizado de ‘I Buzinaço Federal’ reuniu inúmeros caminhoneiros de várias partes do país, como forma de protesto contra o aumento do preço do óleo diesel, as más condições das pistas, o alto preço dos transportes de carga e o baixo valor pago pelos fretes.
As propostas do Governo Federal para acabar com a paralisação dos caminhoneiros em rodovias do país não agradaram parte da categoria e o acordo assinado com representantes sindicais não está sendo seguido pelos caminhoneiros liderados pelo Comando Nacional dos Transportes, que assim como seus criadores, não tem vínculo com nenhum sindicato, partido político ou qualquer outra instituição.
“Somos trabalhadores independentes buscando melhorias para uma nação. O movimento está se fortalecendo ainda mais por conta da teimosia desse governo”, afirma Ivar.
Segundo ele, não há previsão para fechamento das rodovias nos limites do Rio Grande do Norte. Já no vizinho Ceará, algumas manifestações já ocorreram. De Mossoró, apenas Schmidt participa dos bloqueios.
Ele contou à GAZETA que mesmo morando em Mossoró, cidade que não participa das manifestações, através das amizades que fez durante o tempo que era caminhoneiro vem conseguindo mobilizar os manifestantes em todo o país. Hoje ele é proprietário de um caminhão e uma transportadora. As redes sociais como Facebook e o WhatsApp foram as principais ferramentas utilizadas pelo ex-caminhoneiro para mobilizar os manifestantes.
Os caminhoneiros desafiaram a Justiça e mesmo com liminares que estipulam multas de R$ 5 mil a R$ 10 mil por hora em caso de bloqueio de rodovias, eles continuaram as barricadas em vários pontos de estradas em todo o país. “Como ficou comprovado, esses sindicatos, que há décadas traem nossa categoria, não estão representando ninguém nesse movimento… Cansamos desse pessoal que só tem interesse no boleto que nós pagamos. O nosso movimento tem muita adesão e apoio da população que sabe das nossas dificuldades”, destaca.
Os protestos de caminhoneiros pelo país completam hoje 14 dias, motivados principalmente pela alta do preço do óleo diesel e pelos preços dos fretes, considerados insuficientes pelos manifestantes. “Queremos a criação do frete mínimo para acabar com a exploração que existe hoje”, garante. 80% dos bloqueios estão concentrados em rodovias federais dos estados da região Sul.
Entre as propostas apresentadas durante reunião na quarta-feira, 25, em Brasília entre representantes dos caminhoneiros e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rosseto, estão o congelamento do preço do óleo diesel e a prorrogação para pagamentos de dívidas dos caminhoneiros com programas federais. No entanto, o acordo não agradou boa parte dos manifestantes que decidiu continuar a paralisação.
“O Governo não nos reconhece como líderes do movimento, apesar de isso ser óbvio. Tentam nos desqualificar… Infelizmente, eles fazem uma guerra de egos. Essa proposta é uma fraude. O movimento está sofrendo muita pressão para terminar com os bloqueios nas rodovias, mas não vamos ceder enquanto não houver algum avanço com a pauta de reivindicações”, disse Ivar Schimidt ontem pela manhã, informando que não tem previsão para voltar para Mossoró e que conta com o apoio da esposa e dos filhos aqui na cidade.
Em nota divulgada no domingo, dia 1º, sobre as manifestações dos caminhoneiros nas estradas do país, a Secretaria-Geral da Presidência da República informou que o governo vai ampliar a presença das forças policiais para garantir o cumprimento das decisões judiciais e a desobstrução das rodovias, em busca de garantir o direito ao trabalho e o abastecimento da população.
Uma nova reunião foi marcada entre caminhoneiros e empresários, com mediação do governo, para o próximo dia 10. O encontro servirá para que as duas partes cheguem a um acordo sobre uma tabela que calculará os novos preços dos fretes.
Ontem, 2, no Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff sancionou, sem veto, a Lei dos Caminhoneiros.
Pontos propostos pelo governo
1 – Sanção integral da nova Lei do Caminhoneiro;
2 – Isenção de pagamento de pedágio para o eixo suspenso de caminhões vazios;
3 – Aumento do valor da estada, de R$ 1,00 para R$ 1,38 por tonelada/hora, calculada sobre a capacidade total de carga do veículo, valor este que será atualizado todos os anos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC);
4 – Obrigatoriedade do embarcador ou destinatário da carga de fornecer documento hábil para a comprovação do horário de chegada do caminhão, sujeito à multa de 5% sobre o valor da carga;
5 – Tolerância do peso bruto total de 5%, e de peso por eixo de 10%, além de perdão das multas por excesso de peso expedidas nos últimos dois anos;
6 – Responsabilização do embarcador pelos prejuízos decorrentes do excesso de peso e transbordo da carga com excesso;
7 – Inclusão de obrigação do governo de instalar e incentivar pontos de paradas, mediante cessão de áreas públicas;
8 – Carência de um ano para pagamento das parcelas de financiamento de caminhões dos contratos em vigor de transportadores rodoviários autônomos e microempresas dos programas Pró-caminhoneiro e Finame;
9 – Elaboração de tabela referencial de fretes pelas entidades representativas dos caminhoneiros e das transportadoras com os embarcadores, tendo mediação do Ministério dos Transportes, com a primeira reunião a ser realizada em 10 de março;
10 – Compromisso da Petrobras de não realizar, pelos próximos seis meses, reajuste no preço do diesel;
11 – Compromisso da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) de melhorar o resultado dos fretes dos caminhoneiros a níveis satisfatórios.






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