O sonho de Lennon, de um mundo em paz, sem guerras e sem religião ainda está muito longe da realidade
Quando John Lennon compôs Imagine, em 1971,
era difícil supor que, quase meio século depois, seu sonho estivesse
cada vez mais fora do alcance da humanidade.
Em português, “céu” é usado indistintamente para significar tanto o
firmamento quanto o paraíso, mas na linguagem coloquial em inglês, como
está na letra de John Lennon, há uma clara distinção entre “sky” e “heaven”.
Lennon queria um mundo em que o céu fosse apenas o vasto espaço sobre nossas cabeças, povoado por estrelas e galáxias.
Recusava a estreiteza do mundo religioso que recompensa os crentes
com a bem-aventurança eterna, em meio à mais completa glória, e pune os
descrentes com horríveis sofrimentos sem fim, em meio às chamas do
inferno.
Quando seu discípulo John lhe pergunta onde está o caminho, Jesus
responde: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém chega ao Pai, a
não ser por meu intermédio”.
Este é um dos pontos da doutrina protestante em que empaco. A
diferença entre dobrar à direita, para o paraíso, e dobrar à esquerda,
para o inferno, pode estar tão estreitamente definida?
Mas de 1971 para cá o fundamentalismo, seja ele cristão, judaico ou muçulmano, só fez crescer.
É impressionanrte – e mesmo assustador – por exemplo, ver nos Estados
Unidos o número de pessoas que acreditam que o mundo foi criado
exatamente como está na Bíblia, em sete dias, com, primeiramente, Adão,
depois Eva, tirada de sua costela, a maçã e a serpente.
O Estado de Israel, implantado por potências cristãs para aliviar sua
consciência pesada pelo holocausto, mas à custa de territórios onde
viviam muçulmanos, em nada contribuiu para aliviar a tensão entre as
três grandes religiões monoteístas.
É sintomático que, ainda hoje, a imprensa árabe, quando se refere aos ocidentais, os chame, frequentemente, de “cruzados”.
Sim, as cruzadas da Idade Média, as expedições de cristãos europeus
contra o Levante habitado por muçulmanos, permanecem vivas em suas
memórias.
Nos dias mais atuais, a história do colonialismo europeu na região,
em especial por parte de ingleses e franceses, e modernamente a contínua
ingerência dos americanos, motivada sobretudo pela sede de petróleo, só
contribuíram para agravar as tensões.
Às tensões religiosas, sobrepõem-se os conflitos raciais, pois a maior parte do mundo islâmico é de pele escura.
O atentado ao semanário Charlie Hebdo é um pequeno capítulo numa história que só tende a se agravar.
“Imagine all the people living life in peace…”
John Lennon era mesmo um sonhador.
José Inácio Werneck,
Correio de Brasil






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